Indígenas começam a retornar ao local onde ocorreu o massacre, que resultou na morte do cacique Nísio Gomes; quatro pessoas estão desaparecidas
21/11/2011
da Redação
- Fonte: Instituto Socioambiental
Amambai (MS) - Famílias que chegaram por último à aldeia após serem expulsas ou removidas de fazendas vivem em barracos improvisados Foto: Valter Campanato/ABr
Queremos apuração rigorosa das violências praticadas contra os Guarani Kaiowá do acampamento Guaiviry, e fim do genocídio no Mato Grosso do Sul
Na última sexta-feira, dia 18 de novembro, os povos indígenas e todos aqueles que apoiam suas lutas tiveram que amargar mais um assassinato, o do líder guarani kaiowá Nísio Gomes. Ele foi vítima de um ataque de pistoleiros ao acampamento guarani conhecido como Tekohá Guaiviry, no município de Aral Moreira (MS). Foi alvejado e levado pelos agressores, junto com outros dois Kaiowá – que seguem desaparecidos.
Trata-se de mais um ato do corrente genocídio dos Guarani. Em 14 de novembro, uma carta assinada no 1º Encontro de Acampamentos Indígenas do MS já denunciava que o Tekohá Guaiviry estava cercado por jagunços a serviço de fazendeiros da região. Os Kaiowá explicam sua difícil situação: “Em Mato Grosso do Sul existem cerca de 31 acampamentos de indígenas situados na margens de rodovias e em pequenas áreas retomadas pelo nosso povo. Em todos esses lugares estamos acampados porque tomaram nossas terras e porque a situação de violência e miséria nas poucas reservas já existentes está insuportável”.
Este caso faz parte de uma série de violências que vêm sendo praticadas contra os Guarani no Mato Grosso do Sul, cujos responsáveis diretos e mandantes seguem impunes. Segundo dados do Relatório de Violência contra os Povos Indígenas em Mato Grosso do Sul, produzido pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), entre 2003 e 2010 ocorreram 253 assassinatos de indígenas naquele estado.
Nós, abaixo assinados, solicitamos que o Ministério da Justiça apure os fatos relatados e puna com rigor os responsáveis por estes crimes, que nos envergonham a todos e ponha fim à esta situação inaceitável.
São Paulo, 21 de novembro de 2011
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PARA ASSINAR, ACESSE: http://www2.socioambiental.org/violencia-contra-os-guarani-kaiowa
Indígenas começam a retornar ao local onde ocorreu o massacre, que resultou na morte do cacique Nísio Gomes; quatro pessoas estão desaparecidas
21/11/2011
da Redação
Os indígenas Guarani Kaiowá do acampamento Tekoha Guaiviry, entre os municípios de Amambaí e Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul (MS), começam a retornar ao local após o ataque que sofreram na última sexta-feira (18).
Eles seguem a orientação do cacique Nísio Gomes, 59 anos, executado com tiros de calibre 12 por cerca de 40 pistoleiros fortemente armados que invadiram o acampamento. Antes de cair inconsciente, o cacique pediu aos indígenas que não desistissem da luta que travam por seu território tradicional. “Vocês não deixem esse lugar. Cuidem com coragem dessa terra. Essa terra é nossa. Ninguém vai tirar vocês...Cuidem bem de minha neta e de todas as crianças. Essa terra deixo na tua mão. Guaiviry já é terra Indígena”, disse o cacique, segundo divulgado pelo conselho da Aty Guasu, movimento político guarani kaiowá.
Durante o ataque, os indígenas correram para a mata e chegaram aos municípios de Amambai e Ponta Porã. Alguns deles chegaram a prestar depoimento na Delegacia da Polícia Federal em Ponta Porã e disseram que, além do cacique, pelo menos outras três pessoas foram atingidas pelos pistoleiros. Sete mulheres indígenas contaram que três jovens – J.V, 14 anos, M.M, 15 anos, e J.B, 16 anos – foram baleados, sendo que um encontra-se hospitalizado e os outros dois desaparecidos.
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| Indígena ferido por balas de borracha - Foto: MPF/MS |
Ainda não se tem o número exato de vítimas, justamente porque a comunidade se dispersou para a mata para se proteger do ataque. O Ministério Público Federal (MPF) recebeu informações, ainda não confirmadas, de que uma mulher e uma criança também teriam sido baleadas. Além da munição convencional, os pistoleiros usaram balas de borracha contra os indígenas, deixando muitos feridos.
De acordo com os relatos das testemunhas, o massacre tinha como alvo o cacique. Depois de morto, o corpo de Nísio Gomes foi levado pelos pistoleiros em uma das caminhonetes usadas durante o ataque – prática vista em outros massacres cometidos contra os Guarani Kaiowá no MS.
“Estavam todos de máscaras, com jaquetas escuras. Chegaram ao acampamento e pediram para todos irem para o chão. Portavam armas calibre 12”, disse um indígena da comunidade que presenciou o ataque e terá sua identidade preservada por motivos de segurança.
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| Marcas de sangue encontradas durante a perícia - Foto: MPF/MS |
“Chegaram para matar nosso cacique”, afirmou. O filho de Nísio tentou impedir o assassinato do pai, segundo o indígena, e se atirou sobre um dos pistoleiros. Bateram no rapaz, mas ele não desistiu. Só o pararam com um tiro de borracha no peito.
A Polícia Federal, integrantes da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e do conselho Aty Guassu (Grande Assembleia Guarani), Fundação Nacional do Índio (Funai) e MPF estiveram no acampamento. Em nota, o MPF afirma que abriu investigação e na perícia constatou marcas de sangue que remontam a cena de um corpo sendo arrastado, possivelmente o do cacique Nísio Gomes.
Luta pela terra
Os indígenas ocupam desde o dia 1º deste mês a terra localizada entre as fazendas Chimarrão, Querência Nativa e Ouro Verde – instaladas em Território Indígena de ocupação tradicional dos Kaiowá. Antes, a comunidade vivia na beira de uma Rodovia Estadual.
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| Agentes da Polícia Federal no local do massacre - Foto: MPF/MS |
A área ocupada pela comunidade está em processo de identificação desde 2008 e em fase de conclusão do relatório pela Funai. Há aínda um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) do Ministério Público Federal (MPF) em execução, referente ao processo de demarcação da Terra Indígena. Por conta disso, o ataque tem como principal causa o conflito pela posse do território. A região do ataque fica a meia hora da fronteira com o Paraguai.
Conforme recente publicação do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) sobre a violência praticada contra os povos indígenas do MS nos últimos oito anos, no estado está concentrada a maior quantidade de acampamentos indígenas do país, 31 - há dois anos, em 2009, eram 22.
São mais de 1200 famílias vivendo em condições degradantes à beira de rodovias ou sitiadas em fazendas. Expostas a violências diversas, as comunidades veem suas crianças sofrerem com a desnutrição – os casos somam 4 mil nos últimos oito anos - e longe do território tradicional.
Atualmente, 98% da população originária do estado vivem efetivamente em menos de 75 mil hectares, ou seja, 0,2% do território estadual. Em dados comparativos, cerca de 70 mil cabeças de gado, das mais de 22,3 milhões que o estado possui, ocupam área equivalente as que estão efetivamente na posse dos indígenas hoje.
Em nota, o Cimi responsabilizou a presidenta da República, Dilma Rousseff, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, o presidente da Funai, Márcio Meira e o governador do Mato Grosso do Sul, André Puccinelli pela chacina praticada contra a comunidade Guarani Kaiowá.
“O Poder Executivo tem sido omisso, negligente e subserviente. Com isso, promove e legitima as práticas de violências. O ministro da Justiça recebe latifundiários, mas não cobra Márcio Meira, presidente da Funai, sobre o andamento do processo de identificação e demarcação das terras indígenas que desde 2008 caminha de forma lenta – enquanto a morte chega cada vez mais rápida aos acampamentos indígenas. ”, afirma a nota do Cimi. (com informações do Cimi)
- Fonte: Amambai Notícias
19/11/2011 20h31
Pio Redondo / Mídia Max
A reportagem do Midiamax entrevistou o filho de Nisio Gomes, líder indígena executado por um bando fortemente armado na manhã de ontem, 18/11, no acampamento Guarani-Kaiowá, que fica entre fazendas da região de Ponta-Porã e Amambai.
Valmir Gomes forneceu as mesmas declarações que à Polícia Federal de Ponta Porã, que são reproduzidas aqui. Ele afirma que alguns dos pistoleiros encapuzados que dispararam contra cerca de 520 índios tinham roupas com detalhes que lembravam militares. E uma das caminhonetes possuia chapa branca.
Além disso, o líder conta que três crianças foram sequestradas pelos bandoleiros, também paraguaios.
MPF/MS
De cima pra baixo: Agentes PF vasculham local; Indígena ferido; Manchas de sangue do líder; Nizio
Confira a entrevista
Reportagem - Como começou o tiroteio? Valmir - Nas 6.25 horas eu olhei do outro lado, eu vi umas sete pessoas. E no meio, o paraguaio chamado Paulo Recarte (?), ele é um camisa amarela, mesmo. Ai falou assim: “Depois quando chegaram ai no acampamento, “tiro, tiro, tiro” – falando assim. Aí que o pai já falou “tiro, tiro, tiro mesmo”... aí ficou doido meu pai, depois eu também, depois caiu o meu pai, mesmo.
R - Você viu o seu pai morto? V - Mas viu, viu na minha cara mesmo, pegou talho na cabeça, outro na face e outro na perna – calibre 12.
R - Quem foi que atirou no seu pai? V - O pistoleiro, mesmo. Tudo pistoleiro do fazendeiro, aí.
R - Eles são ligados a que fazendas? V - Tem fazenda Chimarrão, Querência, tem Ouro Verde, também.
R - Depois que atiraram no seu pai, o que fizeram? V - Depois que atiraram no meu pai aí, carregaram no Toyota Hilux, cor prata. Depois de colocar, falaram assim: “eu não falei pra matar”, falou assim aquele paraguai, na língua deles, falando em guarani, na língua deles, falando. Aí que o pai já estava na caminhonete, depois “queimaram o foguete”. Depois, seguimos atrás das caminhonete. Na última caminhonete, uma caminhonete Ranger, cor verde ou azul escuro,tinha um símbolo de “gavião” mesmo, um símbolo de gavião mesmo. Aquele homem igual que o oficial, oficial de quartel, mesmo. Ai outro vestiu de camisa de soldado, soldado mesmo, tem símbolo na (....) o chapeuzinho tem símbolo, mesmo, tudo lá. Escondeu as placas com papelão, só que uma caminhonete Ford Ranger é chapa branca, chapa branca.
R - E você já falou isso para a Polícia Federal? (de Ponta Porã) V - Já, já falei a ocorrência com meu pai, na Polícia Federal.
R - Você acha que além do seu pai, tem mais vítimas? V - Temos, temos, temos. Levaram uma menina de 12 anos, um rapaz de 12 anos, e uma criança de 5 aninhos.
R - Levaram como? V - Levaram junto com o corpo do meu pai.
R - Na caminhonete? V - Na caminhonete Hilux, cor cinza.
R - E essas pessoas estavam feridas? V - Não, não estavam feridas, eles estavam chorando rodeando junto com o corpo do meu pai e aí pegaram.
R - Não apareceu até agora? V - Até agora não apareceu mesmo, e o corpo do meu pai, eu queria ver o corpo do meu pai.
R - E eles atiraram no seu pai ou atiraram em todo mundo (cerca de 520 pessoas)? V - Atiraram em todo mundo, só que não acertaram tava tudo no meio do mato, mesmo.
R - O que você vão fazer agora? V - Agora eu vou juntar mais gente, a não vai sair mais.
R - E se esse povo vier de novo? V - Se esse povo vem, ah.. agora que nós vamos fazer (.?..) tá ferrado, mesmo.